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Mutirão
contra o lixo
CARLOS
MINC
Fonte:
Jornal O Globo
09/02/2004
Página 7
Entre
as principais ameaças ao meio ambiente e à saúde
pública estão os lixões a céu aberto.
Neles se despeja o lixo doméstico e hospitalar, inclusive
seringas e sangue, pilhas e baterias compostas de cádmio,
mercúrio e chumbo e resíduos industriais ilegais.
Nos lixões adultos e crianças disputam partes do material
lançado com porcos e urubus, num cenário fétido
orquestrado pelo zumbido de mosquitos e moscas varejeiras.
São
tristes sinfonias que expressam a fusão dos nossos dramas
sociais com os crimes ambientais. Estes lixões são
fontes de contaminação do solo, dos lençóis
freáticos, de rios e lagoas, juntamente com o esgoto sem
tratamento. O chorume é um líquido escuro e espesso
gerado pela decomposição das substâncias do
lixo e que polui o meio ambiente, matando patos e peixes criados
nos arredores, pois acaba com o oxigênio dissolvido na água.
Depois
de muita luta aprovamos a lei 4.191, de outubro de 2003, que define
a destinação final dos resíduos sólidos.
As prefeituras passam a ter o prazo de um ano, a partir da promulgação
da lei, para dispor todo o lixo gerado em aterros sanitários
adequados, com separação de pilhas, tratamento do
chorume e apoio às cooperativas de catadores. Estas medidas
serão combinadas com a educação ambiental,
dentro e fora das escolas, inclusive com a criação
de centros de reciclagem nas unidades escolares, com a coleta seletiva
domiciliar, com políticas de redução, reaproveitamento
e reciclagem dos resíduos sólidos.
O lixo
é a matéria-prima fora do lugar. Quase tudo pode ser
reaproveitado, desde que separado e limpo, gerando emprego e renda
para milhares de pessoas. Dos 92 municípios do Estado do
Rio, atualmente 64 têm lixões, ainda que alguns sejam
incorretamente batizados de aterros, onde apenas se passa um trator
por cima da lixaria.
Por
uma década insistimos com a Comlurb para a implantação
da coleta seletiva domiciliar. As respostas, negativas, alegavam
que o lixo coletado seletivamente era de duas a três vezes
mais caro do que o lixo normal. Agora que estamos neste impasse
anunciado com o esgotamento em um ano do aterro sanitário
de Gramacho, em Caxias, esta questão foi reconsiderada, e,
felizmente, começou a coleta seletiva em alguns bairros,
ainda que tardia e sem a divulgação necessária.
A lei
da coleta seletiva de pilhas e baterias (3.183/99) é outra
dívida a ser cobrada. Depois de sua aprovação,
há cinco anos, discutimos com a Comlurb que implantou 500
coletores verdes nas ruas. Sem campanhas, sem interação
com agentes sociais e econômicos, a maior parte destes foi
depredada.
Para
a reciclagem de plásticos e PET aprovamos a lei 3.369/00,
regulamentada em 2002, depois de várias manifestações.
As empresas que produzem e comercializam plásticos e PET
são responsabilizadas pela recompra e pela destinação
e são obrigadas a apoiarem as cooperativas de catadores com
depósitos, prensas ou transporte.
Trata-se
de converter um grave problema a poluição de
praias e lagoas e o entupimento de rios e canais em uma solução
a criação de emprego e renda para os coletores.
No Rio o percentual de PET coletado dobrou desde a lei, de 12% para
24% do total comercializado de 800 milhões de garrafas/ano.
Mas está muito abaixo da recuperação de latas
de alumínio, onde alcançamos a liderança mundial
com 94% de reciclagem.
Com
a entrada dos supermercados na rede de recompra e com a instalação
da primeira fábrica de reciclagem de PET na zona oeste do
Rio, esperamos terminar 2004 com mais de 35% de PET reciclado. Mas
quanto aos plásticos em geral o nível de reaproveitamento
é inferior a 10%, baixíssimo, e há omissão
empresarial e governamental.
O teor
civilizatório de uma sociedade pode ser aferido pela forma
que esta lida com seus velhinhos, seus presos, com os portadores
de deficiências físicas e mentais e como ela trata
do lixo que gera. Somos a sociedade da desigualdade e do desperdício;
da impunidade e da poluição; do consumismo e da fome.
Desejamos a todos um ótimo 2004, e que cobremos de empresas
e governos novas posturas e o cumprimento das leis, inclusive a
da erradicação dos lixões. E que saibamos fazer
cada um de nós a sua parte neste esforço para construirmos
uma sociedade menos predatória e profundamente mais humana
e solidária.
CARLOS
MINC é deputado estadual (PT).

Instituto Ambientalista da Cidade do Rio de Janeiro
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