|
|
|
Nova
chance com a eleição
ANDRÉ TRIGUEIRO
Fonte:
Jornal O Globo
27/03/2004
Página 7
Antes que a campanha
eleitoral ganhe fôlego e os candidatos a prefeito se manifestem
sobre seus respectivos programas de governo em todo o país,
é importante destacar a enorme responsabilidade dos prefeitos
sobre a gestão sustentável das cidades. É
deles, por exemplo, a atribuição constitucional de
tratar adequadamente do lixo.
Num país em que 60% dos resíduos sólidos são
abandonados em vazadouros a céu aberto, disseminando doenças
e contaminando as águas subterrâneas, é importante
que os eleitores cobrem dos candidatos a construção
de aterros sanitários e o incremento de programas de reciclagem,
que já empregam aproximadamente 500 mil catadores. Com idade
entre 35 e 40 anos, a maioria desses catadores tem baixa escolaridade
e poucas chances no mercado de trabalho formal.
Os políticos ainda não entenderam que o incremento
da reciclagem significa a geração de renda e emprego
em escala, com benefícios ambientais expressivos. A questão
do lixo está inserida dentro do planejamento estratégico
das cidades, consolidado no Plano Diretor, e daí vem outro
indicador preocupante: hoje, 1.600 municípios com população
acima de 20 mil habitantes não têm plano diretor, como
recomenda a Constituição federal e determina o Estatuto
das Cidades.
Um outro instrumento importante de planejamento, e que incorpora
a variável ambiental num processo de discussão envolvendo
a sociedade civil, é a Agenda 21 local. Apenas 423 cidades
brasileiras já definiram ou estão formatando a Agenda
21.
A falta de planejamento desorganiza as ações de caráter
preventivo, e reduz a figura do prefeito a de um mero gerenciador
de crises. É
no ambiente das cidades que a tragédia da favelização
se manifesta, constituindo mais uma dor de cabeça para os
prefeitos. Ainda assim, em 17,5% dos municípios de pequeno
porte no Brasil e 6,2% dos de grande porte, não há
nenhum programa habitacional em andamento. Embora a falta de moradia
esteja inserida num contexto maior de empobrecimento da população
e má distribuição de renda, os prefeitos não
podem se omitir, até porque a favelização costuma
avançar sobre áreas de preservação ambiental
(florestas e mangues) e encostas, expondo milhares de pessoas ao
risco de enchentes e deslizamentos de terra. O
mesmo acontece em relação a águas e esgotos.
A Constituição federal estabelece que a União,
estados e municípios têm competências comuns
em relação a esse assunto. Mas falta um marco regulatório
que explicite as atribuições de cada unidade federativa
no processo. Muitos prefeitos preferem não agir, à
espera dessas definições, quando poderiam buscar soluções
alternativas, como a gestão compartilhada em consórcios.
Num país
em que 43% da população vivem em regiões metropolitanas
com mais de um milhão de habitantes, parte dos problemas
enfrentados pelos prefeitos -- inclusive água e esgoto -
extrapola o raio de ação do município e alcança
o conjunto das cidades situadas ao redor. A experiência dos
consórcios municipais é inovadora, porque reúne
grupos de prefeitos interessados em resolver coletivamente seus
problemas, unindo forças e recursos, principalmente da gestão
de resíduos sólidos e bacias hidrográficas.
Com o aval das respectivas Câmaras municipais, esses prefeitos
transferem o poder decisório para o consórcio, que
define, por exemplo, onde será construído o hospital,
o aterro sanitário, a estação de tratamento
de esgoto, um sistema integrado de transportes e outras iniciativas
importantes em benefício de toda a região. A
melhor fonte de informações, para eleitores exigentes
e candidatos que queiram economizar tempo e dinheiro investindo
em projetos reconhecidamente sérios e bem-sucedidos em municípios
de todo o Brasil, está acessível no banco de dados
do programa Gestão Pública e Cidadania ( http://inovando.fgvsp.br
), um empreendimento conjunto da Fundação Getúlio
Vargas e da Fundação Ford, apoiado pelo BNDES, que
desde 1996 vem premiando as iniciativas mais interessantes. São
6.256 projetos inscritos, dos quais 800 - justamente os que se classificaram
para a fase semifinal de cada ano - aparecem descritos em detalhes,
oferecendo soluções inteligentes e sustentáveis
nas áreas de infra-estrutura e meio ambiente, serviços
públicos, cidadania e direitos humanos, desenvolvimento econômico
e social.
O curioso é que muitos desses projetos surgiram fora da esfera
governamental, até serem incorporados pelos gestores públicos
e apresentados como exemplo. Neste
Brasil continental, em que 81% dos brasileiros vivem em cidades,
as eleições municipais abrem novas e importantes perspectivas
de gestão, onde houver a cultura do planejamento estratégico
e o interesse em conhecer experiências bem-sucedidas desenvolvidas
em outros lugares.
ANDRÉ TRIGUEIRO é jornalista.

Instituto Ambientalista da Cidade do Rio de Janeiro
Pensando no amanhã, reciclamos hoje.
Telefones: (21)2431-2050 / (21)8772-2300 / (21)9888-3962
E-Mail: reviverde@reviverde.org.br
Todos os Direitos Reservados
|
|