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CONSUMINDO
A VIDA
ANDRÉ TRIGUEIRO
27/11/2004
Jornal: O GLOBO
Caderno: Primeiro Caderno
A avassaladora
farra consumista desencadeada a partir da Revolução
Industrial, potencializada com o avanço tecnológico
dos meios de produção e universalizada pela mídia
na era da globalização, está custando caro
ao planeta. Há evidentes sinais de exaustão dos recursos
naturais não renováveis, já denunciados em
sucessivos relatórios do Programa das Nações
Unidas para o Meio Ambiente ( Pnuma), no estudo divulgado pela organização
não-governamental WWF, segundo o qual o consumo de
recursos naturais já supera em 20% ao ano a capacidade do
planeta de regenerá-los, ou ainda no relatório
Estado do Mundo 2004, do Worldwatch Institute, quando
se afirma que o consumismo desenfreado é a maior ameaça
à humanidade. Os pesquisadores do Worldwatch denunciam
que altos níveis de obesidade e dívidas pessoais,
menos tempo livre e meio ambiente danificado são sinais de
que o consumo excessivo está diminuindo a qualidade de vida
de muitas pessoas.
O lado perverso desse
consumo excessivo é que ele se restringe a uma minoria concentrada
principalmente nos países ricos. Apenas 1,7 bilhão
dos atuais 6,3 bilhões de pessoas que habitam o planeta têm
hoje condições de consumir além das necessidades
básicas. Ainda assim, a demanda por matéria-prima
e energia cresce, precipitando o mundo na direção
de um impasse civilizatório: ou a sociedade de consumo enfrenta
o desafio da sustentabilidade, ou teremos cada vez menos água
doce e limpa, menos florestas, menos solos férteis, menos
espaço para a monumental produção de lixo e
outros efeitos colaterais desse modelo suicida de desenvolvimento.
Cada um de nós,
independentemente do poder aquisitivo, pode fazer a sua parte na
construção de uma nova sociedade de consumo, onde
a compra de cada produto ou serviço seja precedida de alguns
pequenos cuidados. Dar preferência aos fabricantes ou comerciantes
comprometidos com energia limpa, redução e reaproveitamento
de resíduos, reciclagem de água, responsabilidade
social corporativa e outras iniciativas sustentáveis é
um bom começo. Checar se o que pretendemos adquirir é
realmente necessário é fundamental. O conceito de
necessário varia de pessoa para pessoa, é assunto
de foro íntimo. Mas pode-se descobrir neste exercício
os sintomas de uma doença chamada oneomania, ou consumo compulsivo,
que, de acordo com pesquisa do Instituto de Psiquiatria do Hospital
das Clínicas de São Paulo, acomete aproximadamente
3% da população brasileira, em sua maioria mulheres.
É gente que usufrui apenas do momento da compra, para muito
rapidamente deixar o produto de lado e, não raro, mergulhar
num sentimento de culpa. Muitos endividados que tomam empréstimos
em bancos ou em agiotas são oneomaníacos.
O fato é que
a maioria dos brasileiros simplesmente não tem a opção
de consumir mais do que o necessário. De acordo com a Pesquisa
de Orçamento Familiar do IBGE (POF/2003), considerando a
soma dos rendimentos e das despesas das famílias brasileiras,
somente naquelas em que a faixa média de renda ultrapassa
os 4 mil reais por mês há algum dinheiro sobrando.
Nestes casos, tem-se a opção de consumir algo mais
com relativo conforto. Estamos falando de uma minoria estimada em
17 milhões de brasileiros. Por esta conta, 165 milhões
estariam excluídos da farra consumista; mas não isentos
do bombardeio de anúncios que abrem o apetite para sonhos
de consumo irrealizáveis, e que geram muitas vezes ansiedade,
angústia e frustração. A resignação
é o caminho. A depressão, um risco. A violência,
uma possibilidade.
Por tudo isso, em
diversas partes do mundo celebrou-se ontem o Buy Nothing Day
(Um dia sem compras), um protesto simbólico idealizado pela
ONG canadense Adbuster Foundation Media (www.adbusters.org), que
há 13 anos vem sugerindo nesta data uma pausa no transe de
consumo. Desprezado pela grande mídia, o protesto na verdade
é um alerta para a urgência de mudarmos hábitos
e comportamentos fortemente arraigados em nossa cultura. No Brasil,
o Instituto Akatu pelo Consumo Consciente( www.akatu.net) e o Instituto
Brasileiro de Defesa do Consumidor (www.idec.org.br) também
desenvolvem campanhas alertando os consumidores. O consumo é
fundamental à vida. O consumismo desequilibra a vida. Tomar
partido em favor do consumo consciente, como sugerem essas organizações,
é uma questão de sobrevivência.
ANDRÉ TRIGUEIRO
é jornalista.

Instituto Ambientalista da Cidade do Rio de Janeiro
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