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Tão
bela e tão suja
Zuenir
Ventura
Jornal: O GLOBO
Caderno: Primeiro Caderno
Por mais louvável que seja, e é, essa operação
iniciada no fim de semana para tentar pôr ordem na orla carioca,
retirando mendigos e controlando o comércio informal, não
vai conseguir resolver o problema que mais incomoda os turistas
daqui e de fora ouvidos em pesquisas de opinião: a falta
de limpeza das ruas e calçadas. A cidade maravilhosa, uma
das mais bonitas do mundo, é também das mais sujas,
apesar de um eficiente serviço de coleta de lixo. E por essa
mazela não se deve responsabilizar o poder público,
mas a sociedade, e nem sempre sua parcela mais pobre.
Se de fato a Comlurb é uma das instituições
mais simpáticas e que melhor funcionam, como se explica o
paradoxo? Por que o aparato de que dispõe a cidade como nenhuma
outra proporcionalmente 50 mil lixeiras e nove mil garis
não dá conta da sujeira que produzimos diariamente?
Por que o lixo jogado no chão representa 40% do total do
município, enquanto em outras grandes cidades do Primeiro
Mundo não passa de 5%?
A resposta é
simples: apesar de ser um povo asseado individualmente, que gosta
de água desde o tempo dos tamoios, o carioca é imundo
coletivamente limpo por dentro e sujo por fora. Ou seja,
é capaz de manter brilhando o seu espaço privado,
cuidando como poucos da higiene pessoal e doméstica
do corpo, da roupa íntima, da casa e do carro mas
joga toda a sujeira na rua, transformando o espaço público
numa grande lixeira.
A mesma dama da Zona
Sul que exige da empregada deixar impecável o chão
do seu apartamento é a que acha normal levar o cachorro para
fazer cocô na calçada ou nos canteiros. O motorista
que paga ao porteiro para lavar seu automóvel três
vezes por semana, quando não todo dia, é o mesmo que
não tem o menor pudor de jogar fora pela janela garrafas
de plástico, sacos de papel amassado e latas de refrigerante.
Talvez, quem sabe,
isso seja herança do velho hábito colonial de guardar
os excrementos e dejetos domiciliares em barris, que eram transportados
pelos escravos, os tigres, e jogados à noite
em terrenos baldios ou no mar.
O pior é que,
por falta de educação e por mau hábito, o lixo
vem aumentando oito ou nove vezes mais do que a população
nesses últimos 20 anos. E não há muito o que
fazer, a não ser aplicar a lei que desde 2001 prevê
multa e sanção para quem polui o espaço público.
Mas, como sempre, não se consegue fazê-la cumprir.
Como disse uma vez o presidente da Comlurb, experimente dizer
para alguém não jogar lixo na rua. A pessoa ri na
cara.

Instituto Ambientalista da Cidade do Rio de Janeiro
Pensando no amanhã, reciclamos hoje.
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