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Verdes
(Entrevista de Leonardo
Boff ao Caderno JB Ecológico do Jornal do Brasil - 28/04/2002)
''Somos
Deus e o Satã da Terra''
O
pensador, escritor e teólogo Leonardo Boff lembra que a verdadeira
e ecológica descoberta do planeta em que vivemos foi registrada
na mensagem feita pelos astronautas em solo lunar: "Daqui de
cima não há diferença entre a Terra e a Humanidade,
disserem eles. É tudo uma única realidade. Não
dá para ver a Terra aqui e a humanidade ali separadas. Não.
É uma totalidade só. Mais do que uma totalidade, é
uma unidade", ainda frisaram. Essa afirmação
é de fundamental importância, ressalta Boff: "Os
povos originários sabiam disso, mas nós havíamos
esquecido. Ela está presente até na palavra que nos
define: homem, que vem de húmus, terra fecunda. Significa
que nós somos parte e parcela da Terra".
JB
ECOLÓGICO - Por que temos tanta dificuldade em lembrar
dessa verdade tão ancestral
LEONARDO
BOFF - É porque, na nossa ilusão, criamos um pedestal
sobre o qual nos colocamos vaidosamente, pensando que toda a Criação
só tem sentido se ordenada ao ser humano. Nós nos
sentimos reis e rainhas do universo e da Terra. É o famoso
antropocentrismo, o ser humano como o centro de tudo. Só
que isso não é verdade. O ser humano entrou no cenário
da história da Terra quando 96% dessa história já
estavam concluídos. A Terra não é, portanto,
produto do trabalho humano. Ela não surgiu a partir do desejo
humano. A Terra, com sua imensa complexidade, biodiversidade, e
é essa a verdade que nos dói, se realizou sem nós.
ECOLÓGICO
- Mas ela não precisou do ser humano para elaborar a sua
grandeza?
BOFF
- Nós surgimos a partir dos elementos terrestres e cósmicos
que nos antecederam. Somos nós, então, que pertencemos
à Terra e não a Terra que nos pertence. Daí
a profunda ilusão de pensar que somos a destinação
última da Terra. Foi isso que nos fez separar ecologicamente
da Natureza, de Deus, do Criador. Rompemos a solidariedade planetária
e cósmica. Em vez de nos colocarmos junto às coisas,
nos colocamos acima delas, para dominá-las.
ECOLÓGICO
- Essa é a nossa ilusão?
BOFF
- Sim, porque, na verdade, nós dependemos de um prato de
arroz e feijão, de um copo de água. Dependemos dos
trilhões e quatrilhões de microorganismos, de vírus
e de bactérias que estão dentro de nós. A nossa
sobrevivência e a garantia de nossa saúde dependem
do equilíbrio dos organismos vivos que são invisíveis,
representam 80% de toda a vida, e compõem a vitalidade da
Terra e também a nossa. Dizem-nos os cientistas que, em uma
colherzinha de solo comum, há 50 bilhões de microorganismos.
Nós dependemos dessas realidades, mas nos esquecemos. Por
isso fomos ao exílio. Nos isolamos da imensa comunidade de
todos os seres vivos. Mas recuperamos a verdade. Descobrimos a Terra,
a humanidade como a Terra que pensa.
ECOLÓGICO
- Existe outra descoberta?
BOFF
- A vida. Essa descoberta, que nos veio a partir de 1954, foi algo
absolutamente surpreendente até para a própria ciência,
depois que dois cientistas norte-americanos decodificaram o código
genético, isto é, aquele alfabeto diante do qual é
construído um ser vivo.
ECOLÓGICO
- Mas qual foi a surpresa da decodificação do código
genético do ser humano?
BOFF
- A descoberta de que este código está presente em
cada célula do corpo humano, mesmo a mais exterior, na epiderme,
que nós podemos, com a unha, arrancar. Ela tem toda a informação
necessária para construir e reconstruir a vida, reproduzir
e multiplicar a sua imensa diversidade. A surpresa foi que a vida
é absolutamente unitária. Da ameba mais originária,
há 3,8 bilhões de anos, passamos pelos dinossauros
que morreram há 67 bilhões de anos, chegamos aos colibris
de hoje, aos cavalos e a nós. Temos o mesmo código
genético. Temos o mesmo alfabeto mediante o qual a vida se
constrói. Apenas as sílabas se combinam diferentemente
e aí surge a diversidade dos seres vivos. Mas a vida, aprendemos,
é profundamente unitária.
ECOLÓGICO
- Então somos todos irmãos e irmãs, como
pregava São Francisco?
BOFF
- Sim, pela ciência. Quando ele percebeu essa verdade por
intuição. Todos os seres são irmãos
por uma consequência científica, construídos
que somos com os mesmos elementos físico-químicos.
A diferença entre um chimpanzé e nós é
de quatro décimos de genes. Temos 99,6 de genes iguais. Só
faltam 0,4, que o chimpanzé tem, mas que não estão
ativados. Se um dia fossem ativados, o chimpanzé viraria
um ser humano. Admito, inclusive, que eles nem queiram ser seres
humanos do jeito que somos. Preferem ficar chimpanzés.
ECOLÓGICO
- Qual será a descoberta seguinte?
BOFF
- Essa ainda está em construção. É descobrirmos
qual é a nossa missão aqui. Para isso, precisamos
ser éticos. E ser ético significa ser esse ser responsável
pela casa comum que é o planeta Terra. A função
antropológica e ética da ecologia é esta: a
de devolver ao ser humano a consciência de sua responsabilidade
pelo ambiente comum. Já em 1866, o fundador do discurso ecológico,
Ernest Heikel, um alemão discípulo de Darwin, criou
a palavra ecologia e também a definiu: ecologia é
a ciência doméstica. Assim como economia, palavra aparentada
da ecologia que cuida das necessidades da casa. Ou o ecumenismo,
que também vem de "oikos", que prega a harmonia
dos habitantes da casa comum, para que vivam em paz e não
conflitem entre si. Ecologia significa cuidar da casa comum, que
não é a casa onde nós habitamos, nem a cidade
onde nós vivemos. A casa comum é o planeta onde todos
os seres vivem juntos, articulados entre si.
ECOLÓGICO
- O ser humano conseguirá? Haverá tempo de ele cuidar
dessa casa comum?
BOFF
- Nós já nos demos conta de que podemos ser o satã
da Terra ou seu anjo bom. Atualmente, estamos demonstrando que podemos
ser o satã. Nós montamos uma máquina de morte
que vem devastando todo o planeta. Mais da metade dos animais e
plantas que existiam na Terra já foi exterminada. Dois terços
de todas as espécies de aves sobre a Terra também
estão ameaçados. Uma entre 10 já foi exterminada.
E a cada dia desaparecem 50 espécies de plantas e 10 espécies
de animais. Isso é avassalador! Nós devemos ter consciência
disso. Envenenamos os solos, enchemos de pestilências os ares,
contaminamos as águas. Aquilo que mais produzimos como cultura
capitalista não são eletrodomésticos, televisores
ou carros. É lixo que não se recicla. A natureza não
conhece lixo. Ela recicla tudo, retrabalha tudo.
ECOLÓGICO
- Estamos sendo, então, o satã da Terra?
BOFF
- Mais do que isso. Mostramos que somos homicidas. Somos, também,
etnocidas, matando etnias, nações indígenas.
E ecocidas, por acabarmos também com ecossistemas naturais.
Só 12% da Mata Atlântica estão preservados.
O resto foi eliminado com todas as espécies existentes lá
dentro. E podemos ser geocidas, acabando com a Terra. O cientista
Carl Sagan nos deixou um testamento trágico, uma grande advertência.
Ele dizia: "O ser humano, nos últimos três séculos,
fundamentalmente nas últimas décadas, inventou o princípio
da autodestruição. Se ele agilizar as 60 mil armas
atômicas, químicas e biológicas que já
estão construídas e estocadas, poderá eliminar,
várias vezes, a biosfera."
ECOLÓGICO
- E o futuro?
BOFF
- Sagan também dizia que sobreviver hoje não depende
mais das forças cosmogênicas e da lógica da
natureza. Depende de uma decisão política dos seres
humanos em favor da sobrevivência.
ECOLÓGICO
- E então?
BOFF
- Se não tomarmos essa decisão, com a voracidade do
modelo de civilização que consome energia, quebra
os ecossistemas, degrada a Terra, humilha as espécies e as
elimina, essa lógica poderá nos levar ao destino dos
dinossauros. Por isso, a Ecologia não é apenas um
tema da moda. É um tema de profunda revitalidade, um eixo
ao redor do qual se articulam todas as questões. Dessa vez,
não haverá uma Arca de Noé que salve alguns
e deixe perder os outros. Ou nos salvamos todos ou nos perdemos
todos.

Instituto Ambientalista da Cidade do Rio de Janeiro
Pensando no amanhã, reciclamos hoje.
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