ONG transforma lixo em comida
Coleta seletiva feita por empresas e condomínios do bairro é revertida na compra de cestas básicas


Além do esgoto, as lagoas da Barra sofrem também com o lixo produzido e descartado nos rios. São garrafas plásticas, latas de alumínio, pedaços de papel, entre muitos outros detritos que poderiam ter outro destino. Foi pensando exatamente nisso que a publicitária Regina Laginestra começou, há cinco anos, uma campanha de coleta seletiva de lixo no bairro.

Hoje Regina é presidente da ONG Reviverde e conta com orgulho que 30 condomínios e grandes empresas - como Shell e Gafisa - já estão separando o lixo orgânico de vidros, papéis, plásticos e alumínio. Uma vez por semana o material é comprado por cooperativas.
Apenas no condomínio Solar da Barra, onde Regina mora, as três toneladas de lixo rendem R$ 350. Com o dinheiro, são distribuídas cestas básicas aos 11 funcionários do prédio e ainda sorteadas outras três entre as empregadas domésticas.

- Um dia fui ao compactador de lixo do meu prédio e fiquei assustada quando vi tudo misturado. Conversei com o síndico e decidimos começar a fazer a coleta seletiva - lembra Regina, que fez um exaustivo trabalho para convencer todos os moradores:
- As pessoas achavam que juntar jornal para vender a R$ 0,10 o quilo não valia a pena. Com o tempo provei o contrário. Só de jornal vendemos mais de 700 quilos por mês.

O sucesso do modelo de venda de lixo para reciclagem no Solar da Barra foi exportado para outros condomínios. No Atlântico Sul, por exemplo, o síndico do bloco 5, Gregório Rubim, construirá um novo depósito de lixo. Satisfeito com o resultado, ele faz questão de ressaltar o aspecto social da coleta:
- Separar o lixo não custa nada, só é preciso ter boa vontade e desejo de ajudar o próximo. Os funcionários se sentem valorizados com as cestas ou os brindes que sorteamos.

Com fama de durão entre os funcionários do prédio, Gregório conta que prefere não participar dos sorteios de cesta básica entre as domésticas para não se emocionar. No último mês, Regina conta que todos saíram chorando do encontro:
- Uma empregada foi sorteada e começou a chorar. Todo mundo achou estranho, mas ela disse que havia prometido dar a cesta básica a um irmão que estava desempregado. Ninguém segurou a emoção - lembra.
Seguindo os passos dos condomínios, a Gafisa entrou em contato com a ONG e começou a vender as embalagens vazias de cimento. Por semana, são vendidas duas toneladas de papel.

- Muita gente acha que colocando o lixo na lixeira ele não existirá mais como em um passe de mágica. Acham que a responsabilidade passa a ser da Comlurb e da prefeitura. Temos a obrigação de separar nosso lixo e reciclá-lo. É o mínimo que podemos fazer pelo meio ambiente. Espero que outros bairros sigam o exemplo - ressalta Regina.

Reportagem: RENATA VICTAL
Jornal do Brasil - Caderno Barra
29/06/2004

 

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